Jeanne La Pucelle - A Coroação
*** HP Joana D´Arc, a Donzela de Domremy ***
* A Coroação *


Apesar da intranqüilidade, Carlos finalmente decidiu que se entregaria aos cuidados de Joana. Ela prometera vê-lo coroado e isso de fato ele desejava muito. Os ingleses ainda dominavam grande parte do território através do qual ele teria que passar para ir de seu castelo, no vale do Loire, até Reims. Joana ficou muito feliz ao receber esta missão. Suas vozes eram claras e ela estava certa de que a vitória estava agora ao alcançe deles.

Em pouco mais de uma semana, os franceses obtiveram quatro espantosas vitórias. Os comandantes ingleses, Conde de Suffolk e Lord Talbot foram feitos prisioneiros. Em uma batalha, em Patay, quase três mil soldados das tropas destroçadas do comandante inglês Fastolf foram aprisionadas. Mas infelizmente, afastar os ingleses não era o suficiente para garantir a viagem segura do delfim até Reims. Eles ainda teriam que lutar contra borgonhenses que controlavam a região em torno da cidade.
Mensageiros tinham sido enviados a toda velocidade a Chinon, e Joana estava se preparando para deixar Orléans imediatamente, com a maioria do exército. Não havia tempo a perder com comemorações. Ela precisava encontrar o delfim em Blois, e de lá seguiriam para Reims.

Mas, insesperadamente, Joana aguardou dois dias em Blois, e o delfim não apareceu. Somente um tempo depois chegou a mensagem de que ele estava para partir para Tours, e Joana imediatamente seguiu para àquela cidade.
Os dois se encontram do lado de fora de Tours. Os cavalos dos dois se aproximaram, quase se tocando, e Joana tirou seu gorro e inclinou-se acentuadamente. O delfim segurou-lhe a mão e a beijou. Foi um momento profundamente emocionante.

Entretanto, Carlos decidiu que já obtivera o bastante de Joana e de suas nobres campanhas. Depois de todo ocorrido, agora era hora de lidar com o duque de Borgonha. Como Carlos tinha aversão por batalhas, ele tentou reduzir ao mínimo as batalhas travadas em seu nome. Isso tudo se deve ao fato de os monarcas do século XV sempre se envolverem nos assuntos de guerra.
Joana e Carlos descansaram em Tours. A jovem, no entanto, estava muito impaciente para partir. E o delfim parecia indeciso. Estava cercado pelos seus assessores, cujo chefe era Georges de la Trémoïlle - um homem covarde, mas sonso e astuto. Era muito gordo e rancoroso, e um homem a ser vigiado, porque os que o ofendiam costumavam sair de cena. Ele sempre estava ao lado do delfim, e sua palavra tinha muita influência.
Para homens como ele, era desconcertante ver tanta adulação dirigida a uma camponesa ignorante.
A La Trémoïlle era interessante ver o delfim fraco, dependendo dele; ele sempre aconselhara uma política de irresolução. Quando Joana insistiu para que fossem para Reims, La Trémoïlle, junto com o chanceler Regnault de Chartres opuseram-se a ela.

"Não há tropas suficientes, nem dinheiro, para uma viagem dessas"

Mas Joana não se dava por vencida tão facilmente. Procurou Carlos em seus aposentos privados, e ninguém teve coragem de impedí-la. Ela caiu de joelhos diante dele e disse que deviam partir já. As vozes estavam insistindo com ela. Ele tinha de ir para Reims.
"Há obstáculos demais" disse ele "Há cidades nas mãos dos ingleses. Você não percebe que elas estarão duplamente fortificadas... depois de Orléans?"
"Percebo apenas que devemos ir à Reims. Minhas vozes assim o exigem, senhor, e
elas têm que ser obedecidas
"
Por fim, foi dela a voz que o convenceu, e o delfim, com sua corte e um exército de doze mil homens, partiu para Reims.

O duque de Borgonha, Filipe, o Bom, era primo de Carlos. Tinha ele tudo que faltava em Carlos. E ao contrário do delfim, o duque deixava claro que desejava governar a maior parte do território francês. Joana foi avisada de que não desafiasse Filipe. No entanto, o sentimento voltou-se para o homem que logo seria rei e pouca resitência se encontrou para atravessar o território borgonhês. Em Troyes, o inimigo se rendeu sem nenhuma luta, só por ver a figura da donzela montada em seu cavalo, pronta para detê-los.

Ao chegarem à Reims, os principais cidadãos saíram, como Joana previra, e nas mãos levavam as chaves da cidade. Estavam esperando ansiosos a chegada da donzela com o delfim, e dali a poucos dias depois ele seria coroado rei da França.

Em 15 de julho, Carlos entrou em Reims, o clima era de júbilo. Por todo o canto as pessoas gritavam:
"Longa vida ao rei!!!"
Para todos, um rei coroado era uma dádiva divina e sua autoridade dada por Deus. E essa autoridade tinha de ser exercida com humildade, para o bem do povo colocado a seu serviço. Para que a transferência de poder fosse efetivada, os franceses acreditavam que a cerimônia tinha de se realizar em Reims. Este era o local onde Clóvis, o primeiro rei cristão da França, havia sido coroado por São Remígio, em 496. Muitos visitantes compareceram e Carlos, com a mão sobre a Bíblia, jurou defender a Igreja e governar com justiça e misericórdia.
Durante todo o tempo, Joana permaneceu perto de Carlos onde sua atenção era totalmente voltada para o homem que era o novo rei. Ela carregava bem alto o seu estandarte pois, a seus olhos, indicava o Deus a que ela servia e que estava por trás de todos os milagres dos três últimos meses.

Dunois observou Joana o tempo inteiro. Depois de toda a festa da coroação, aproximou-se dela:

"Joana, você conhece a estalagem chamada Ane Rayé. Devia ir até lá. Acho que encontrará algo de seu interesse"
"O que encontrarei lá?" peguntou ela
"Eu a levarei, e você verá por si mesma"
As pessoas abriam caminho para ela e Dunois. Ela foi saudada por um silêncio respeitoso; mas aquele era o dia do rei. Dia de beber, comer e farrear e cantar Vive le Roi.
Joana não acreditou no que viu ao chegar à estalagem. Era sua mãe, seu pai, e os irmãos Jean, Pierrelot e o marido de sua prima, Durant Laxart. Foi um momento muito emocionante...

A coroação foi um momento de grande triunfo para Joana e Carlos. A donzela conseguira realizar a segunda tarefa estabelecida pelas vozes. A fé, bem como a persistência da jovem haviam sido bem recompensadas e para Carlos, o grande sonho de ser reconhecido como legítimo rei se realizara.
Carlos recebia congratulações de todo o reino, e como sinal de lealdade, muitas cidades ofereceram-lhe as chaves de seus portões.

Joana considerou que era o momento ideal para pressionar no sentido de executar a terceira tarefa estabelecida por suas vozes: a libertação do restante da França, principalmente Paris, do domínio dos ingleses e dos borgonheses. Pouco depois da coroação, Joana passou a insistir com Carlos para que deixasse marchar sobre Paris.

Agora que gozava de algum poder e prestígio, o verdadeiro caráter de Carlos se evidenciou. Ao invés de dirigir-se para o norte e prosseguir com a campanha para recuperar o resto de seu reino, partiu para o sul. Lá poderia relaxar e gozar uma vida de ócio na corte, seguro em território sob seu controle. Qualquer simpatia que algum dia tivesse tido em relação ao entusiasmo militar de Joana se diluíra.
Além disso, havia Georges de la Trémoïlle - traiçoeiro como nenhum outro homem. Seu pai fora ligado ao duque de Borgonha, com quem foi criado desde a infância. O duque devia achar benéfico ter um homem que sentisse certa amizade por ele vivendo tão perto de seu inimigo, o rei.

Carlos estava vulnerável a influência que estes astutos conselheiros exerciam. Esses homens, La Trémoïlle e Regnault de Chartres, o chanceler, na verdade, estavam enciumados em relação à garota de Domremy, e viam a oportunidade de afastar o rei de Joana. Prometeram resolver problemas com Borgonha por meio de negociações, conseguindo um tratado preliminar e, pouco depois, um acordo de paz de quatro meses. Quando soube dos termos do acordo, Joana ficou indignada. Assinando-os, Carlos estava negociando - e entregando - a única coisa pela qual a jovem vinha lutando: a reunificação de toda a França sob um único governante.
Carlos garantiria à Borgonha o direito de manter-se independente e concordara em devolver ao duque Filipe muitas das cidades que, recentemente, haviam preferido tornar-se fiéis ao reino da França. Entretanto, corriam rumores de que, antes de negociar o tratado com Carlos, a Borgonha havia firmado outro com ingleses, pelo qual obtivera um reforço de três mil e quinhentos homens para a luta.

O senso de dever que Joana sentia em relação ao seu rei dificilmente poderia contê-la. Expressou então sua indignação à Carlos:

"Armistícios tão adaptados não me fazem feliz. Tampouco estou certa de respeitá-los."
Como não obtivesse respostas, ela ficou profundamente desanimada. Em muitas ocasiões perdera a calma, como nunca fizera antes. Os tratados lhe provocavam um estranho pressentimento quanto a seu futuro, pois despertava-lhe suspeitas de que aqueles que o haviam feito não tolerariam, por muito tempo, qualquer pessoa como ela, que ousasse mostrar como esses acordos eram ruins para a França. Joana não temia nada, exceto a traição. Houve momento em que ela pensou em se retirar e retornar pra casa, entretanto suas vozes permaneciam mais insistentes:
"Vá, vá, filha de Deus!!!"
Haviam uma cláusula no segundo tratado que deu coragem à Joana: os dois lados concordavam que Paris seria excluída do cessar-fogo. Sem dúvida Borgonha concordara com isso porque sentia que, depois da chegada das novas tropas inglesas, já não haveria possibilidade da França retomar a cidade. Para Joana, porém, enquanto houvesse possibilidade de ataque, haveria esperança. Afinal, o rei permitiu que Joana partisse à Paris. Mas a indiferença em relação à tomada de Paris, confudiu a donzela. Por que o rei concordou com a cláusula da exclusão de Paris do cessar-fogo se não estava interessado em tentar retomá-la?

Joana se preparou na primeira semana de setembro para atacar a cidade pelos dois lados, junto com o duque de d´Alencon. Ele construiu uma ponte de emergência sobre o rio Sena, no lado sul de Paris. Contudo, o ataque concentrou suas forças no lado norte, não rendendo o esperado durante as lutas. Seu pajem foi morto e ela foi atingida por uma flecha na coxa. Ao cair da noite, já estava pronta para bater em retirada.
No outro dia, Joana insistiu. Dois mensageiros do rei trazem ordens para o cessar da luta, deixando-a furiosa. Não acreditava que Carlos pudesse desistir tão facilmente. Como ele não poderia se preocupar com a cidade mais importante da região?

Ao alcançar o local que ela e d´Alencon planejaram iniciar o ataque, viram que a ponte improvisada fora queimada durante a noite. A obra fora feita sob ordens de Carlos. Como ela mesma pressentia, devia temer a traição - e pela parte do próprio rei. Carlos não pretendia tomar Paris. Queria apenas dar uma oportunidade à Joana de lutar, numa situação que sabiam que não poderiam vencer. Talvez uma derrota da donzela diminuísse sua grande influência junto ao povo e retirasse o apoio para a sua campanha agressiva. Carlos tinha confiado que o inimigo resolveria esse assunto por ele.
Próxima ao desespero, Joana ordenou que seus homens se retirassem. Então foi sozinha até a abadia de Saint Denis e rezou.

Com o passar dos meses, o desejo do rei em enfraquecer Joana tornou-se cada vez mais claro. Aos poucos, ele dispensou os melhores e mais fiéis grupos de cavaleiros que a acompanhavam desde o acerco de Orléans. Tentando mascarar sua hostilidade, Carlos deu à Joana o sobrenome "de Lys", que era concedido apenas aos nobres. Mas estes pouco serviram para melhorar o humor da donzela. Afinal, ela nunca usou esse sobrenome. Agora, somente a oportunidade de honrar suas vozes e cumprir a missão poderia trazer-lhe a felicidade verdadeira.

Na primavera de 1430, a impaciência da jovem aguçou-se. Em março passado, enquanto ainda estava em Poitiers, suas vozes lhe disseram:
"Somente um ano - Não mais!"

E desde então, já se passara quase um ano e seu tempo se esgotava.
Em final de março, sem nada dizer à Carlos, decidiu reunir todos os lanceiros-livres, os mercenários daquela época, e pagou-lhes com o dinheiro que recebera do rei na campanha de Orléans.
Partiu para o norte onde parou em Merlun, a fim de comemorar a Semana Santa. Lá, ela recebeu nova mensagem de suas vozes:
"Você será capturada antes do dia de São João" Isso apavorou Joana. Mas as vozes reafirmaram-lhe que Deus a ajudaria a suportar o que quer que acontecesse.

Seu primeiro destino foi Compiègne, cidade considerada a porta de entrada para o norte. O duque de Borgonha vinha tentando ocupá-la. O fraco Carlos simplesmente aconselhara a seus cidadãos que se rendessem ao duque. Mas o povo queria resistir as ordens do rei, e pediram a Joana que os ajudasse.
Os inimigos pressentiram o perigo e pediram reforços. Quando os franceses chegaram, os borgonheses estavam mais que preparados. E mesmo que Joana se esforçasse para agrupar seus soldados, uma onda de pânico assolava. Os franceses recuam e, ao se aproximarem de Compiègne, atropelam-se pela ponte elevadiça em direção à segurança do interior da cidade. Guillaume de Flavy, capitão da guarnição de Compiègne e, o mais importante, meio-irmão de Regnault de Chartres, sabia que Joana encontrava-se ainda do lado de fora. E mesmo assim ordenou que a ponte levadiça fosse levantada e que a grade levadiça fosse arriada. Quando Joana alcançou a ponte, esta já havia sido erguida.

A jovem, deixada do lado de fora, logo foi cercada. Ouviu-se um grito:
"A Donzela! Pegamos a Donzela!"
Joana viu-se cercada de borgonheses. Um deles agarrou o longo vestido que usava sob a armadura e puxou-a do cavalo.
"Renda-se" bradou um deles
Ela estava derrotada. Acontecera o que ela sabia que ocorreria. Seu destino era aquele, e devia enfrentá-lo com coragem.
Ela rendeu-se calmamente e consentiu ser levada para o acampamento borgonhês.
Ergueu-se o brado:
"Pegamos a Donzela! Ela está em nosso poder!"
A notícia de sua captura logo espalhou-se por quase toda a França. Houveram muitas lamentações na aldeia de Domremy.
"Eu sabia que isso ia acontecer." disse Jacques "Aquilo nunca foi certo. Ela jamais devia ter-nos deixado..."
"Era a finalidade da vida dela
" respondeu Zabillet "Rogue a Deus que Ele trate bem dela"

O duque de Borgonha estava agitado, pois a donzela estava nas mãos do conde de Luxemburgo, seu vassalo. Resolveu que fixaria um resgate. O rei da França, por dever sua coroa a ela, ofereceria um bom valor... Bedford também estaria ansioso para pôr as mãos nela, porque enquanto ela vivesse e participasse de batalhas, seus

homens sempre teriam medo dela. E George de la Trémoïlle sentia uma imensa alegria.
Os cidadãos de Orléans estavam estupefatos com o acontecimento. O povo reuniu-se nas ruas cantando o "Miserere"; em Tours e em Blois, muitos foram descalços até os santuários dos santos.

Mas mesmo depois de tudo que aconteceu, Carlos não efetuou o pagamento do resgate. Ele era profundamente influenciado pelos conselheiros, principalmente por La Trémoïlle, que o fez acreditar que não tinha qualquer dívida com ela.
"Ela está nas mãos de Borgonha, não dos ingleses" assinalou Trémoille
"Os ingleses vão esforçar-se para tê-la em seu poder"
"Foi um risco que ela correu, e se foi mesmo enviada por Deus, Ele irá protegê-la. Ela sempre foi imprudente. Nunca ouviu um conselho... sempre fazendo o que queria"
A Igreja também tinha um grande interesse em Joana. Como era a época da inquisição, a jovem passou a ser considerada uma ameaça aos teólogos da Universidade de Paris.

Joana foi levada para o castelo Beaulieu, que pertencia ao seu captor, o conde de Luxemburgo.
"Jesus" rezou ela "não deixeis que eu caia em mãos dos ingleses"
Mas ela sabia que estava a um passo disso, porque Luxemburgo era vassalo de Borgonha, e este último era aliado dos ingleses. Mas, no fundo, ela acreditava que Carlos pagaria o resgate. Entretanto, este fato não aconteceu.

Joana passou a pensar numa outra solução. Tentou fugir duas vezes. Na primeira, foi descoberta pelo guarda. Na segunda, foi ainda mais infeliz. Reparou numa estreita abertura que havia no alto da prisão. Tomou impulso e a alcançou. Estava no alto de uma torre de vinte metros, de onde deduziu que seus santos a conduziriam na descida. O ar frio bafejou seu rosto. Ela deu um passo para o nada...

Joana acordou e viu duas mulheres ao lado de sua cama. Achou que fossem duas santas, devido à suavidade de seus traços. Uma delas era muito idosa, a outra, mais moça, mas Joana sentiu bondade nas duas.
"Ah, você acordou" disse a mais velha das duas "Levou uma queda grave, mas vai se recuperar. Precisa descançar. Não há nada a temer. Temos cuidado de você"
"Onde estou?"
"No castelo de Beaurevoir"
"Ainda aqui"
"É... você caiu da janela"
"Quem são vocês?"

"Sou a condessa Jeanne de Luxemburgo... tia do conde, e essa é a esposa dele,
Jeanne de Bethune
"
Mas Joana não considerou as duas mulheres como suas inimigas. Enquanto se recuperava, percebeu o quanto devia à bondade delas. Começou a entender que a senhora mais velha era de certa importância, porque era dona das propriedades de Luxemburgo e, se assim o decidisse, poderia deixá-las para outra pessoa que não o conde. A jovem condessa de Luxemburgo era delicada e religiosa; as duas mulheres tinha pena de Joana, e tratar dela quando quase morrera fizera com que ficassem cônscias de sua piedade. Pela primeira vez desde sua captura, Joana sentiu-se feliz.

O conde de Luxemburgo estava muito necessitado de dinheiro, devido à construção de seu castelo. Portanto, a captura de Joana parecia-lhe um presente do céu. Era avaro por natureza e não tinha certeza quanto à sua herança. Ele precisava muito de dinheiro...
Mas, e agora que Joana passara a ser protegida por sua tia, Jeanne de Luxemburgo? Ela não mais permitiria que a jovem donzela, de quem passara a gostar muito, fosse vendida à seus inimigos ingleses. O conde precisava ser muito cuidadoso para não ofendê-la.

No dia seguinte àquele em que receberam a notícia da captura de Joana, os teólogos da Universidade de Paris enviaram uma carta pedindo que ela fosse transferida para o inquisidor de Paris, a fim de ser julgada como herege. De fato, os ingleses e a Igreja estavam longe de serem rivais em relação à donzela capturada. Os ingleses rejubilavam-se com a idéia de que a mulher que eles acusavam de bruxaria pudesse ser julgada oficialmente e considerada culpada de heresia.

Pierre Cauchon, bispo de Beauvais e astuto negociador, estava encarregado do caso contra Joana, porque ela fora presa em Compiègne, que ficava em sua
diocese.
Cauchon conseguiu que os dois grupos concordassem em compartilhar a decisão sobre o destino de Joana. Pelos termos do acordo, os ingleses pagariam uma grande quantia pelo resgate da jovem, mas a entregariam às autoridades da Igreja para ser julgada. Isso permitia que o julgamento fosse influenciado ao extremo pelos ingleses. Se a improvável possibilidade de Joana não ser considerada culpada acontecesse, esta seria devolvida aos ingleses. Depois desta façanha, Cauchon tornou-se o principal juiz presidente do julgamento.

Numa certa manhã, a velha senhora condessa de Luxemburgo e protetora de Joana, pereceu em sua cama. Ninguém ficou surpreso, pois há tempos que estava doente. As propriedades, naturalmente, passaram para o sobrinho, que

ficou muito satisfeito por ver eliminada para sempre a ameaça da contrariedade dela. Depois os ingleses apareceram com uma oferta muito boa, e Borgonha permitiu que seu vassalo aceitasse. No fim de novembro, Joana soube que fora vendida aos ingleses e logo seria entregue a eles para ser julgada como herege pela Igreja. Ela tinha toda confiança de que seria considerada inocente. Sabia que não era herética e nem rebelde contra Deus. Durante a espera de que o processo começasse, Joana recorria muitas vezes às vozes, buscando conselhos e conforto. Santa Catarina garantiu:
"Você será libertada por uma grande vitória"

Assim, Joana passou para as mãos dos ingleses. No dia 23 de dezembro, chegou à Rouen, onde permaneceu exilada. Enquanto permaneceu em Rouen, Joana determinou que sempre usaria suas roupas masculinas, com sinal de dedicação à Deus. Durante seu exílio, as vozes comunicavam-se com ela diariamente.