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Elas a repreenderam, mas compreendiam. Ela sofrera como poucos tinham sido convocados a sofrer. Elas estavam com ela. Não teria nada a temer.
Não passou muito tempo para que Joana soubesse o que tinha que fazer. Mais uma vez teria de dizer a verdade e retirar sua retratação. E ela sabia bem o que isso significava. Qualquer pessoa que se arrependesse da heresia e depois voltasse atrás, era considerada um herege da pior espécie. Somente a pena capital poderia ser dada a um herege desse tipo, e isso significava morte na fogueira. A antiga força de Joana retornara. Nada, nem mesmo a vida, tinha tanta importância para ela como a necessidade de ser verdadeira consigo mesma, com suas vozes e com Deus.
Assim, recuperou a amarrotada pilha de roupas masculinas e vestiu-as. Sabia que era extremamente proibida de usá-las. Mas não se importou já que as velhas roupas significavam sua fé renascida e fortalecida. Ao amanhecer, Cauchon e vários outros desceram à sua cela e viram-na sob as vestes. Joana empalideceu ao ver seus rostos severos e sem compaixão. Seus olhos encheram-se de lágrimas. Cauchon questionou:
"Por que vestiu essa roupa masculina e quem a fez vestí-la?"
"Fiz isso por minha própria vontade" ela faz uma pausa "Tudo que fiz nesses últimos dias foi por medo do fogo e minha retratação foi contra a verdade. Nunca fiz nada contra Deus e contra a fé, seja lá o que tenha feito para negá-lo"
Com isso, ela colocou em movimento uma cadeia fatal de onde não havia volta.
Na manhã seguinte, um frade foi enviado para informar a prisioneira sobre a sentença. Quando soube da notícia, ela lamentou:
"Ah, preferia ser decapitada sete vezes que ser queimada!"
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Depois de confessar-se e comungar, conseguiu uma certa paz. Isso a sustentaria durante os duros rituais das horas seguintes: a entrega de um vestido velho embebido em enxofre, para que incendiasse mais rapidamente, o solitário percurso até a praça da cidade na carreta do carrasco, a primeira visão do cadafalso com a madeira empilhada em sua base, a multidão de ingleses hostis, os religiosos solenemente sentados em plataformas. Até durante o longo sermão dirigido à ela, permaneceu serena e calma. Então o bispo Cauchon começou a ler a sentença final. |
Com a leitura da sentença, o trabalho e o solene desenrolar dos procedimentos foram imediatamente retomados e as emoções pertubadoras explodiram. Joana começou a rezar alto e, com lágrimas nos olhos, clamava por Deus. Pediu repetidas vezes que a multidão a perdoasse, que rezasse por ela. Logo, muitos espectadores estavam em lágrimas, incluindo os religiosos que a haviam condenado.
"Então vou morrer" pensou ela "Nenhuma cruz para segurar, nenhum consolo para ajudar em minha passagem"
"Não vão me dar uma cruz?" bradou, angustiada, e um dos soldados que tinha ido assistir ao espetáculo viu-se tomado de uma piedade súbita que acho inexplicável. Tinha apenas um último pedido. Que alguém amarrasse um crucifixo da igreja numa vara e segurasse perto de seu rosto para que pudesse olhá-lo durante seus últimos momentos. Um dos religiosos atendeu o seu pedido.
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Logo as chamas ergueram-se e, ao aproximar-se de seu vestido, ela foi tomada pelo pavor e começou a gritar. Por vários minutos, tudo que se ouvia era o crepitar das chamas e seus comovedores gritos... Com sua morte, os sentimentos de lealdade ao rei e ao país despertados por ela se aprofundaram na população francesa. A grande maioria saiu da praça do Velho Mercado de Rouen profundamente abalada. Então, um soldado inglês falou, e suas palavras foram nitidamente ouvidas pelos que o cercavam: "Que Deus nos ajude! Nós queimamos uma santa" Dali em diante, a orgulhosa segurança, fonte de tantos triunfos ingleses na França, começou a ser corroída. Após 25 anos da execução em Rouen, os ingleses tinham sido quase que totalmente expulsos da França. A morte de Joana também influenciou o rei Carlos, que pouco a pouco foi se tornando o rei que ela sempre acreditou que ele pudesse ser. Parece que ele não pôde esquecer essa jovem, a quem devia sua coroa e seu reino.
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