Jeanne La Pucelle - A Fogueira
*** HP Joana D´Arc, a Donzela de Domremy ***
* A Fogueira *


A cela de Joana continuava fria e úmida. As pesadas correntes continuavam a prender seus tornozelos e, no entanto, somente o longo vestido que lhe deram para usar se mostrava diferente no local. O espírito de Joana se mostrava mais negro do que nunca, pois a perspectiva futura desanimava-a profundamente. Anos e anos nessa mesma cela triste, correntes e guardas ignorantes e a negação de que pudesse ouvir a missa.
Novamente, ela buscou auxílio em suas vozes. Essas estavam longe de ser confortantes, pois eram como uma conciência que não podia ser calada:
"Você não agiu bem nesta última quinta-feira... O seu horror da execução é
compreensível, mas você deixou que o seu medo do fogo empanasse seu julgamento. Você não serviu à Deus nem à verdade com o que disse. Falou apenas para salvar a sua vida e, fazendo isso, condenou-se!
"

Elas a repreenderam, mas compreendiam. Ela sofrera como poucos tinham sido convocados a sofrer. Elas estavam com ela. Não teria nada a temer.
Não passou muito tempo para que Joana soubesse o que tinha que fazer. Mais uma vez teria de dizer a verdade e retirar sua retratação. E ela sabia bem o que isso significava. Qualquer pessoa que se arrependesse da heresia e depois voltasse atrás, era considerada um herege da pior espécie. Somente a pena capital poderia ser dada a um herege desse tipo, e isso significava morte na fogueira. A antiga força de Joana retornara. Nada, nem mesmo a vida, tinha tanta importância para ela como a necessidade de ser verdadeira consigo mesma, com suas vozes e com Deus.

Assim, recuperou a amarrotada pilha de roupas masculinas e vestiu-as. Sabia que era extremamente proibida de usá-las. Mas não se importou já que as velhas roupas significavam sua fé renascida e fortalecida. Ao amanhecer, Cauchon e vários outros desceram à sua cela e viram-na sob as vestes. Joana empalideceu ao ver seus rostos severos e sem compaixão. Seus olhos encheram-se de lágrimas. Cauchon questionou:
"Por que vestiu essa roupa masculina e quem a fez vestí-la?"
"Fiz isso por minha própria vontade" ela faz uma pausa "Tudo que fiz nesses últimos dias foi por medo do fogo e minha retratação foi contra a verdade. Nunca fiz nada contra Deus e contra a fé, seja lá o que tenha feito para negá-lo"
Com isso, ela colocou em movimento uma cadeia fatal de onde não havia volta.

Na manhã seguinte, um frade foi enviado para informar a prisioneira sobre a sentença. Quando soube da notícia, ela lamentou:
"Ah, preferia ser decapitada sete vezes que ser queimada!"
Depois de confessar-se e comungar, conseguiu uma certa paz. Isso a sustentaria durante os duros rituais das horas seguintes: a entrega de um vestido velho embebido em enxofre, para que incendiasse mais rapidamente, o solitário percurso até a praça da cidade na carreta do carrasco, a primeira visão do cadafalso com a madeira empilhada em sua base, a multidão de ingleses hostis, os religiosos solenemente sentados em plataformas. Até durante o longo sermão dirigido à ela, permaneceu serena e calma.

Então o bispo Cauchon começou a ler a sentença final.

"Em nome de Deus, nós a rejeitamos, nós a abandonamos, rezando apenas para que
o poder secular possa moderar sua sentença
"
Aquilo era uma ironia. Havia algumas pessoas na multidão que se espantavam com a hipocrisia de uma Igreja que podia levar um de seus membros até aquela praça com o único propósito de entregá-lo às chamas e ao mesmo tempo livrar-se de toda a responsabilidade, sabendo muito bem que nenhum membro do ramo secular teria coragem de contraria sua vontade.

Com a leitura da sentença, o trabalho e o solene desenrolar dos procedimentos foram imediatamente retomados e as emoções pertubadoras explodiram. Joana começou a rezar alto e, com lágrimas nos olhos, clamava por Deus. Pediu repetidas vezes que a multidão a perdoasse, que rezasse por ela. Logo, muitos espectadores estavam em lágrimas, incluindo os religiosos que a haviam condenado.
"Então vou morrer" pensou ela "Nenhuma cruz para segurar, nenhum consolo para ajudar em minha passagem"
"Não vão me dar uma cruz?" bradou, angustiada, e um dos soldados que tinha ido assistir ao espetáculo viu-se tomado de uma piedade súbita que acho inexplicável. Tinha apenas um último pedido. Que alguém amarrasse um crucifixo da igreja numa vara e segurasse perto de seu rosto para que pudesse olhá-lo durante seus últimos momentos. Um dos religiosos atendeu o seu pedido.

Logo as chamas ergueram-se e, ao aproximar-se de seu vestido, ela foi tomada pelo pavor e começou a gritar. Por vários minutos, tudo que se ouvia era o crepitar das chamas e seus comovedores gritos... Com sua morte, os sentimentos de lealdade ao rei e ao país despertados por ela se aprofundaram na população francesa. A grande maioria saiu da praça do Velho Mercado de Rouen profundamente abalada.
Então, um soldado inglês falou, e suas palavras foram nitidamente ouvidas pelos que o cercavam:
"Que Deus nos ajude! Nós queimamos uma santa"
Dali em diante, a orgulhosa segurança, fonte de tantos triunfos ingleses na França, começou a ser corroída. Após 25 anos da execução em Rouen, os ingleses tinham sido quase que totalmente expulsos da França. A morte de Joana também influenciou o rei Carlos, que pouco a pouco foi se tornando o rei que ela sempre acreditou que ele pudesse ser. Parece que ele não pôde esquecer essa jovem, a quem devia sua coroa e seu reino.

Logo que a cidade de Rouen foi retomada dos ingleses e que os registros do julgamento de Joana ficaram disponíveis, começou-se a trabalhar para conseguir a anulação do julgamento e limpar o seu nome. Vários anos se passaram antes que se obtivesse sucesso quanto ao caso, mas Carlos perseverou.
Afinal, em 1455, conseguiu que fosse realizado um novo julgamento. Foram ouvidas testemunhas de todas as partes e familiares de Domrémy, participantes do primeiros julgamento de Rouen, vários companheiros de luta próximos à Joana. Desta vez, os dirigentes religiosos eram escrupulosos. Em 1456, o papa Calixto III declarou Joana livre das acusações que lhe haviam sido imputadas.
Em 1920, Joana Darc foi canolizada pela Igreja Apostólica Romana, devido, basicamente, à crescente devoção que os católicos lhe devotavam.