Jeanne La Pucelle - A Profecia se cumpre
*** HP Joana D´Arc, a Donzela de Domremy ***
* A Profecia se cumpre *


A primeira metade do século XV foi uma época desfavorável para a França. Há décadas vinha sendo travada uma guerra com a Inglaterra, posteriormente chamada de a Guerra dos 100 anos. A guerra se passava totalmente em território francês e muitas aldeias eram devastadas. O povo estava totalmente desmoralizado e os ingleses ganhavam terreno com rapidez. Com a ajuda de seu aliado, o Duque de Borgonha, haviam conquistado a maior parte do norte da França. Até Paris encontrava-se nas mãos dos ingleses.
Quando realmente a França precisou de líderes, estes se mostraram incapazes. O rei fora um louco, passando anos sombrios de sua vida no palácio de St. Pol. A fértil rainha, Isabel da Baviera, tivera uma série de amantes. Como poderia qualquer um dos seus filhos estar certo quanto à identidade do pai? Os ingleses aproveitaram-se da situação. Carlos, temendo que seu filho fosse bastardo, foi levado a assinar um tratado que aceitava que o trono não passasse para seu filho, e sim, para o filho de sua filha. Como a filha de Carlos, Katherine, era casada com o rei da Inglaterra, era provável que a coroa francesa passasse para o monarca inglês algum dia.
Carlos VII, o filho de Carlos VI, cresceu com profundo sentimento de inferioridade e sem nenhum senso de realeza. Com pouca idade, soube dos rumores sobre sua condição de bastardo e indigno de ocupar o trono. Sua vida fora perseguida pelo fantasma deste medo. Além do mais, sua mãe, Isabel, mais parecia odiar os filhos - exceto Katherine, que era casada com o rei inglês. Quando os dois irmãos mais velhos do delfim morreram de forma misteriosa, pensou-se que a rainha queria a coroa para seu caçula. Mas ela se voltara contra ele e o insultara com a dúvida que o perseguira desde então. Seria ele o verdadeiro herdeiro do trono, ou o resultado de um dos encontros de sua mãe com seus inúmeros amantes? Ele agora estava com 26 anos e parecia ter quase cinqüenta, porque levava uma vida de excessos; saíra à mãe quanto a isso, mas enquanto ela mantivera a notável beleza, ele, que nunca tivera quaisquer pretensões de beleza, ficara cada vez mais desfavorecido.
Começara a vida como uma criança sem atrativos. O rosto era inchado desde o nascimento. O nariz era comprido e largo, que parecia pendurar-se sobre os lábios flácidos. Os olhos pequenos estavam quase escondidos em dobras de pele - e sua aparência davam-lhe o ar pouco inteligente. Ele encontrara um grande consolo nos braços das empregadas que, embora não o achassem pessoalmente atraente, ficavam embriagadas com sua realeza. As pernas eram arqueadas, o que provocava um jeito de andar arrastando os pés. Não
era, em absoluto, uma figura que inspirasse confiança.

E ele vivia com medo. Logo cedo desenvolveu um verdadeiro terror pelo combate físico - característica pouco recomendada para um futuro rei. Carlos VII também não suportava ver sangue, era muito inseguro e contentava-se em ser considerado apenas um delfim, termo francês usado para referir-se ao filho mais velho do rei. Considerava-se infeliz por ter nascido na época em que a França estava engajada não apenas naquela luta ferrenha com ingleses, mas em disputas internas. Uma vez, fez uma tentativa meio corajosa para ser coroado, mas ao fim, permaneceu inerte quando os ingleses declararam o infante Henrique VI rei da França e da Inglaterra.

Uma vez, quando Carlos estava no castelo La Rochelle, o teto desabara e só por um milagre sua vida fora salva. Dali por diante, ele vivera com medo de tetos que desabavam. Recusava-se a viver em grandes aposentos. Se fosse desabar, que não passasse de um de pequenas dimensões.
De certo modo, era sultil, ardiloso e astuto, mas era sobrepujado pelo meio onde vivia. Confuso, ansiava por ser declarado filho legítimo do rei da França e, de certo modo, tinha medo disso.
Sua infância fora estragada por um pai louco e uma mãe devassa, e permaneciam lembranças de uma vida de dificuldades com seus irmãos e sua irmã no palácio St. Pol. Àquela altura, sua vida era governada pela dúvida. Será que queria ser o legítimo rei da França? Será que realmente o era? Será que queria lutar para libertar o país do jugo inglês?
Na época em que tudo parecia perdido, começou a circular rumores de uma profecia feita anos antes de que a França seria arruinada por uma mulher libertina de terra estrangeira e seria salva por uma donzela de Lorraine. A primeira parte da profecia se referia a Rainha Isabel e a segunda parte gerava dúvidas. Como poderia uma jovem do distrito rural de Lorraine salvar o reino da França? Isso somente poderia ser feito por um guerreiro nobre e notável.

Assim, cerca de 16 anos antes do cerco a Órleans começar, Jacques Darc (depois escrito d´Arc errôneamente) e sua mulher Isabelle - conhecida carinhosamente por Zabillet - esperavam com um misto de emoção e de apreensão, o nascimento do quarto filho. Não que o que estava pra chegar não fosse ser bem recebido, mas que os tempos estavam difíceis e a chegada de um novo filho significaria mais uma boca para alimentar.

Jacques era de Arc-en-Barrois, e por não ter um sobrenome legal, era chamado segundo sua terra natal. Ele acabara arranjando emprego perto do castelo de Vaucouleurs e, enquanto estivera por lá conhecera Isabelle Romée, conhecida carinhosamente por Zabillet. Eles tinham se apaixonado e se casado. Isabelle - ou Zabillet - embora estivesse longe de ser rica, não era pobre de todo, e ao se casar herdara a casa em Domremy, onde se instalara com Jacques, e lá os filhos tinham nascido. No local, plantavam alguns produtos agrícolas e, com isso e com a permissão que era concedida a todos os moradores da aldeia para levarem o gado para pastar nos campos próximos, conseguiam alimentar e vestir a família toda.

Até as guerras estourarem, ali fora um lugar pacífico para se morar. As notícias custavam a chegar e havia uma certa agitação quando chegavam viajantes, o que acontecia de vez em quando. Os mercadores também por ali passavam, de modo que Domremy não ficava tão isolada do mundo como certas aldeias poderiam ficar. Às vezes, aqueles viajantes permaneciam na aldeia e pediam uma cama para passar a noite e, em troca daquela hospitalidade, contavam o que estava acontecendo no mundo exterior. Além disso, como a casa de Jacques Darc era mais espaçosa do que outras na aldeia, em geral era ele que recebia os hóspedes.
E, por ter uma casa maior que a maioria dos aldeões, e por principalmente ser um homem de caráter forte, Jacques Darc tornara-se uma espécie de líder da aldeia. As pessoas iam à sua casa para falar de seus problemas; se alguma providência devesse ser tomada, elas ouviam seus conselhos.

Era esse o clima que receberia o quarto membro da família Darc. O jovem Jacques - assim batizado em homenagem à seu pai, chamado Jacquemin, em parte por afeto e pelo costume que havia na família de dar apelidos, e em parte para distingui-lo do pai - já estava trabalhando no campo com o pai. O mesmo acontecia com o membro mais moço, Jean; até a pequena Catherine ajudava na casa e estava aprendendo a tecer. Com o tempo o novo filhinho iria juntar-se a eles - se sobrevivesse.
E assim, a criança nasceu, em 1412. Era uma menininha!
Decidiu-se dar-lhe o nome de uma de suas madrinhas - Jeanette de Vittel - que era de Neufchâteau. Joana (Jeanette) era um nome muito apreciado na França, pois era feminino de Jean (João), que tinha sido o discípulo de quem Jesus Cristo mais gostara. Era um bom nome!
Com um pouco mais de três anos de idade, Joana ouviu falar pela primeira vez da guerra. Ela era uma garotinha muito séria e dedicada (já com pouca idade coube-lhe a responsabilidade de cuidar do mais novo integrante, Pierre, conhecido por Pierrelot) e esforçava-se bastante para compreender sobre o que os adultos conversavam.

Ainda que fossem tempos de guerra, as pessoas esqueciam dela por longos períodos e sentiam-se felizes, e então Joana tornava a ouvir aquela odiosa palavra, e as pessoas tornavam-se tristes - mais do que isso, ficavam com medo.
"Por que devemos ter uma guerra e qual benefício ela traz?" perguntava Joana "Por que eles não param com ela? Ela só faz prejudicar as pessoas..."
Já pequena, Joana adorava os cantos na igreja, o tocar dos sinos, as figuras e imagens e tinha prazer em ajoelhar-se para rezar. Sua mãe lhe ensinara o Pai-Nosso, a Ave-Maria e o Credo. A Igreja parecia, para Joana, algo bonito em uma vida cheia de dificuldades e dominada pela necessidade de sobreviver.
E era quando ficava sozinha na igreja, que Joana ajoelhava-se diante da imagem da Virgem Maria e rezava para que os ingleses

pudessem ser obrigados a voltar para suas terras e que a França pudesse tornar a ser feliz.

A criança Joana contava com alguns amiguinhos na aldeia, com quem ria e conversava. Eram Isabelle Despinal e Mengette Joyart, que eram um pouco mais velhas, e Hauviette Sydna, a mais nova.
Um dia, todos foram até a capela de Notre-Dame de Bermont. Lá, rezaram como faziam na igreja de Saint Rémy. Apesar da desistência de Isabelle e Mengette tempo depois por causa do chão duro que machucava seus joelhos, Joana ali permaneceu. Hauviette estava a seu lado e logo faria o mesmo que Mengette e Isabele, mas percebeu que a amiga, que tinha as mãos postas como se em oração, estava de olhar fixo na imagem da Virgem e que seu rosto ficara mais bonito. Hauviette ficou perplexa!
Durante algum tempo depois Joana ficou como que extasiada.
Depois levantou-se e olhou para Hauviette como se estivesse supresa por vê-la e se perguntasse quem era ela.
Tomou a mão de Hauviette e disse:
"Parecia que a Virgem falava comigo!"
Então elas saíram correndo da igreja.

Algumas vezes, Joana visitava seus padrinhos em Neufchâteau, Jeanette e Thiesselin de Vittel. Seu padrinho era um erudito. Sabia ler e escrever. Haviam livros em sua casa e Joana podia segurá-los e abri-los e estudar as estranhas formas que haviam nas páginas e que Thiesselin sabia decifrar de modo muito milagroso. Foi com o padrinho que ela ouviu pela primeira vez as histórias de Santa Margarete e Santa Catarina. Em Greux havia uma escola, mas Joana não tinha certeza se desejaria ir ou não. Ela vira a cartilha coberta com chifre transparente que pertencia a um dos meninos da aldeia e, para ela aquilo não tivera o mesmo encanto que as imagens que havia na igreja e o belo som dos sinos.
E aquela visita à madrinha foi um marco importante na vida da pequena Joana.

Um dia, já em Domremy, chegou um viajante para passar a noite. Sentado em volta da fogueira na casa de Jacques Darc, disse à família e a quantos aldeões que haviam se aglomerado na casa que o rei estava morto e alguns meses antes o rei inglês também morrera.
"Então... quem é o rei da França, agora?" perguntou Zabillet
"É o delfim" disse Joana impetuosa "Ele devia ser coroado rei"
Houve um silêncio e todos olharam Joana. Seu pai a repreenderia por aquela petulância imprópria na presença de um estranho, mas por algum motivo que nem mesmo ele pôde explicar, a repreensão morreu em seus lábios:
"Ele será coroado. Ele será coroado, sim!" prosseguiu Joana
"Não, mocinha, não vai ser o nosso delfim que será coroado" disse o viajante "É um menininho que mora na Inglaterra. Ele agora é rei da Inglaterra e se diz rei da França."
"Os homens malvados é que o chamam assim" disse Zabillet "Ele é criança demais para ser acusado disso"
O viajante continuou dizendo que o garotinho, filho da princesa deles, Katherine, seria levado para a França e coroado quando ficasse um pouco mais velho.
"A essa altura" disse Jacques ", talvez Deus tenha vindo em nosso auxílio"
"E ele virá" disse Joana "Meu coração me diz isso"

Mas a vida não era só tristeza. Catherine, a irmã de Joana, casou-se com Colin, um dos trabalhadores rurais de Greux. Essa aldeia não era muito distante de Domremy, e foi lá que o jovem casal passou a viver. Catherine vivia insistindo com Joana para que pensasse em se casar. Ela era bem apessoada. Um ou dois rapazes da aldeia tinham olhado para ela. Sempre que Catherine falava em casamento, Joana ficava séria e dizia que achava que nunca casaria.
Mas o tempo ia passando e Joana percebeu que sua irmã não parecia bem. Ela estava cada vez mais magra, e tinha uma tosse persistente. Insistia em ajudá-la no serviço, porque Catherine parecia cansar-se com facilidade.

Quando tinha 13 anos, enquanto brincava no jardim do seu pai, ela desabou sob uma árvore um pouco cansada. De repente, ouviu ela uma voz que vinha da direção de uma igreja que havia logo em frente:
"Joana, eu fui enviado por Deus para ajudá-la a ter uma vida boa e santa" disse a voz "Seja boa e Deus a ajudará"
Ela se levantou muito assustada. Estava na presença do sobrenatural.
"Não tenha medo" prosseguiu a voz "Seja boa. Se for, terá a proteção de Deus"
O medo de Joana passou e ela caiu de joelhos. Acreditava que se tratava de Cristo reinvindicando-a como sua esposa, como Ele fizera com Santa Catarina.
"Eu vou ser boa" murmurou ela "Serei a esposa de Cristo. Eu pertenço a Jesus Cristo enquanto Ele me mantiver sob o Seu poder onipotente."
Poucos dias depois, Joana teve outra experiência semelhante. Estava no campo, uma vez mais, quando tornou a ouvir a voz. Estava advertindo-a de que devia ser boa. E nessa ocasião, ela viu imagens estranhas... vultos banhados em luz. Em meio delas havia uma figura majestosa com asas, que ela reconheceu de imediato porque já vira muitas imagens dele. Era o Arcanjo Miguel.
Depois daquele dia, sua voz nunca a deixou e São Miguel falava-lhe duas ou três vezes por semana. Uma vez, ele avisou de que duas santas seriam enviadas para orientá-la. Eram Santa Catarina e Santa Margarete. Elas foram designadas para guiar e assessorar Joana.

Um dia, Joana foi até Greux para visitar Catherine. Sua irmã estava deitada numa cama, muito pálida. Lá, Joana confidenciou à irmã sobre suas visões. Assim como quando contou sobre os fatos à sua amiga Hauviette, ninguém lhe deu muita importância. Por causa disso, a menina Joana prometeu que não contaria nada a mais ninguém. Jamais acreditariam nela.
Aos 16 anos, São Miguel trouxe uma importante mensagem à jovem:
"Vá, filha de Deus, para o Reino da França. Você deve expulsar os ingleses e trazer o rei para ser coroado... Aceite sua bandeira das mãos do rei do Céu. Leve-a com coragem, e Deus a ajudará."
Nesta época, a aldeia de Joana ficava em um território controlado parcialmente pelo Duque de Borgonha, e por isso considerado fora do reino da França.
Ouvindo isso, amedrontada, Joana gritou:
"Sou uma pobre donzela e nada sei sobre guerras!"
"Deus a ajudará" limitou-se a responder a voz
Ela estava confusa. Como seria possível obedecer a uma ordem tão ampla? Quando pensou na resposta de São Miguel, um sentimento de paz invadiu-a e uma resolução profunda começou a criar raízes.

Inicialmente, Joana nada fez, pois sabia que seus pais jamais a deixariam ir. Mas a voz de comando voltava freqüentemente:
"Filha de Deus, vá! Irei em sua ajuda!"

Havia um membro da família por quem joana nutria uma amizade muito especial: Durant Laxart, o marido de sua prima Jeanne le Vauseul. Ele era dezesseis anos mais velho que Joana. Acabou sabendo sobre as visões da jovem e prometeu ajudá-la no que fosse necessário. Mas um problema surgiu repentinamente. Colin, o cunhado de Joana, chegou um dia à casa deles e comunicara que Catherine ficara muito doente e queria ver a todos.
Eles partiram imediatamente para Greux, e lá, deitada na cama, tão pálida, estava Catherine. Mas era tarde demais. Nada mais podia ser feito.

Após o enterro, Joana passou a prestar atenção em suas vozes. Elas voltavam e repetiam que ela foi escolhida por Deus para acabar com a guerra insensata. Sua primeira tarefa seria obter apoio de um certo senhor Robert de Baudricourt, que vivia em Vaucouleurs, cidade não muito longe de Domremy. Não seria fácil conseguir seu apoio, uma vez que fosse administrador de coisas terrenas. Ele não daria crédito às vozes de uma camponesa.
Entretanto, Joana sabia de uma pessoa que poderia levá-la até Vaucouleurs. E esse alguém era Durant Laxart.
E depois de persuadir Durant, Joana partiu sem comunicar nada a ninguém.

Ao chegarem à pequena cidade de Vaucouleurs, Joana e Durant localizaram o castelo e foram até o salão principal, onde o capitão de Baudricourt tratava, naquele exato momento, de assuntos da guarnição. Joana olhou ao seu redor, ansiosa, e não teve nenhuma dificuldade em identificar Robert Baudricourt. Ela não tentou usar de estratagemas. Começou:
"É a vontade de meu Senhor que o delfim torne-se rei e passe a comandar o reino. Apesar dos seus inimigos, ele será rei. Eu mesma o levarei para ser coroado"
"Quem é você?"
"Eu fui escolhida. Sou Joana Darc."
"E quem é o seu senhor?" perguntou Baudricourt
"O rei dos Céus!" respondeu Joana, com simplicidade.
Baudricourt riu. Mandou que Durant levasse a menina Joana de volta aos pais e que eles lhe dessem uma boa surra. Ela volta desencorajada. Mas sabia que não seria fácil, pois as vozes lhe haviam dito que Baudricourt não daria atenção na primeira tentativa. Mas pensou que talvez fosse melhor esquecer por enquanto esse louco sentido de "missão".

No outono de 1428, os acontecimentos tornaram Joana mais consciente de que o país precisava de sua ajuda. Espalhou-se a notícia de que os exércitos borgonheses preparavam-se para atacar Domremy e, por segurança, todos os moradores da aldeia tiveram que fugir para uma cidade fortificada próxima.
Quando os aldeões voltaram, ficaram horrorizados com a total brutalidade dos borgonheses. Tinham desfigurado até a Igreja. E o que aconteceu em Domremy, repetia-se em toda a França. Em outubro, os ingleses sitiaram Orléans, uma das cidades mais importantes ainda em controle da França.

Joana foi dominada pelo remorso. Como desistira tão rapidamente? Como pudera abandonar suas vozes e seu país quando era claro que tanto precisavam dela? Decidiu tentar outra vez a convencer Baudricourt da urgência de sua missão. Mesmo com ameaça de punição de seus pais se fugisse novamente.
Nesses momentos de angústia, Joana ia para o campo e esperava as vozes.
"Não tenha medo, filha" diziam-lhe "Durant Laxart irá ajudá-la outra vez. Então, você irá uma vez mais procurar o capitão Braudricourt. Dessa vez você conseguirá chegar até o delfim"

Novamente Joana encontrou Durant. Ela estava muito decidida a não desistir. Sentia um misto de tristeza e exultação, pois sabia, no fundo de seu coração, que nunca mais veria seus amigos ou sua família. Despediu-se de sua amiga Mengette, mas decidiu não encontrar Hauviette. Gostava muito da menina e se a visse, poderia chorar; inclusive bradar que aquela era a última despedida.

Na guarnição de Vaucouleurs, era grande a consternação sobre o possível destino de Órleans.
Dessa vez, as vozes haviam falado à Joana com muita insistência, com instruções bem mais específicas. Disseram-lhe que deveria levantar o cerco em Orléans. No dia seguinte à chegada à cidade, Joana e Durant apresentaram-se ao castelo. Baudricourt reconheceu-a no mesmo instante.
"Então você veio me procurar outra vez" disse ele
"O senhor precisa saber que Deus me disse qual era a Sua vontade, e que essa vontade é de que eu procure o gentil delfim, que é o verdadeiro e único rei da França, para que ele me dê soldados, a fim de que eu possa ir a Orléans e levantar
o cerco. Depois, eu o levarei a Reims par ser coroado.
"
Mas Baudricourt não desejava para si a responsabilidade de levá-la ao delfim. E se ela fracassasse? Ririam dele por ter sido um tolo ao acreditar num absurdo daqueles. Mas havia quem acreditasse em milagres. Jean de Novelempont, de Metz, conhecido por Jean de Metz, era soldado calejado, e estava pronto a acreditar que Joana tinha poderes dados por Deus. E se tivesse?
Ele decidiu que receberia Joana todos os dias para conversarem. Enquanto isso, era bem possível que Chinon ficasse sabendo da existência dela e mandasse chamá-la. Seria uma solução excelente. E ele não assumiria responsabilidade alguma.

Durante os dias que lá permaneceu, Joana encontrou alojamento, e logo se tornou figura conhecida na cidade. Acharam-na modesta, inteligente, gentil e, o mais importante, nem um pouco louca.

Joana impressionava nobres e camponeses. Jean de Metz e Bertrand Poulengy, um dos comandantes da guarnição, estavam tão impressionados que prometeram escoltá-la até a presença do rei.
E logo a história da jovem que queria salvar a França espalhou-se muito além de Vaucouleurs. Percorreu todo o caminho do castelo real, chegando aos ouvidos do próprio delfim.

Um dia, Baudricourt recebeu um mensageiro real com a informação de que a jovem deveria seguir imediatamente para Chinon, a fim de encontrar-se com o delfim. Tudo estava pronto, somente restava o apoio oficial de Baudricourt:
"Joana, você faz idéia dos perigos que enfrentará viajando com esses soldados rudes? "
"Não tenho medo."
"Pode confiar em Poulengy e em Jean de Metz"
"Eu sei, senhor capitão"
"Em ninguém mais" acrescentou ele Este enfim, entregou-lhe uma espada e abraçou-a na hora da partida.
Durant Laxart permaneceu em sua casa, pois viu que ali acabou a sua missão. Joana não estaria mais sozinha.
Acompanharam Joana, além de Poulengy e Jean de Metz, um arqueiro chamado Richard e Colet de Vienne, que viera de Chinon a pedido de Baudricourt.
Durante a viagem a fé da jovem somente cresceu. Seus companheiros estavam impressionados, pois nunca haviam conhecido alguém como ela, que gostava de façanhas militares, embora insistisse em ir à missa. A partir desta época, começou ela a referir-se por donzela, palavra que também significa "serviçal". Joana identificara-se acima de tudo com a tarefa de servir as suas vozes, seu Deus, seu país e seu rei.

Jean de Metz salientou que Joana não poderia viajar como estava. Eles tinham que dar um jeito de transformar a jovem donzela em um rapaz.
"A primeira coisa são os cabelos. Eles têm de ser sacrificados já" disse Jean
Joana disse que abriria mão deles de boa vontade, e em pouco tempo sua aparência ficou transformada. Os espessos cabelos pretos jaziam em seus pés, e o que restava parecia uma bacia preta virada ao contrário sobre sua cabeça.
"Se você entrar em combate, agora poderá usar a combinação de elmo e gorjal"
Ele encontrou algumas roupas que tinham pertencido a um de seus criados. Não foi fácil vesti-la, porque ela nada tinha de alta, medindo cerca de um metro e meio, com o corpo robusto de uma camponesa. Ela vestia uma camisa, calções curtos e meias compridas, escuras, que podiam ser presas ao gibão. Por cima usava uma capa que lhe chegava até os joelhos. Calçava compridas calças de couro e parecia um rapaz, de boa situação mas não rico. A espada que pegou para completar a vestimenta, foi aquela dada por Baudricourt, junto com seus votos de felicidade.

Em 24 de fevereiro de 1429, Joana chegou a Chinon. No outro dia, chegou-lhe a mensagem de que deveria apresentar-se a corte no dia seguinte.
No dia marcado, exultante, ela se preparou. Até ali, conseguira. Acontecera o que suas vozes tinham-lhe dito que aconteceria. Ela saiu da estalagem e cavalgou até o castelo. Os guardas olharam-na com interesse. Quando ela passou, um deles gritou:

"Aí vem a donzela! Então esta é a virgem. Deixem eu passar uma noite com ela, e ela não o será mais"
Joana voltou-se para olhar para ele.
"Você é ousado por ofender a Deus... você morrerá em breve"
Ela continuou seu caminho, e o homem ficou acompanhando-a com o olhar, tremendo.
Ela soube, mais tarde, que poucas horas depois ele sentira tanto remorso que se suicidara por afogamento.
Na cidade inteira, comentou-se o fato. Cada incidente daqueles ajudava a melhorar sua reputação. Se ela achava difícil convencer os ocupantes de cargos elevados, o mesmo não acontecia com as pessoas do povo. Aumentava depressa a crença de que Joana Darc fora escolhida por Deus para salvar a França.
Cerca de trezentas pessoas compareceram ao acontecimento. E, apesar de seu passado humilde, não se intimidou com a grandiosidade do cenário. Entrou calma e graça, atenta à sua missão. Havia dito que reconheceria o delfim quando o visse. Seus olhos examinaram cuidadosamente a sala até que fixou o olhar em um jovem um tanto feio, com o nariz largo e olhos caídos. Ele não parecia muito majestoso. Mas Joana sabia. Foi até ele, ajoelhou-se à sua frente:
"Deus lhe dê longa vida, bom rei!" disse Joana
O delfim tentou confundi-la. Ficara um pouco abalado com o fato de que ela fora direto até ele. Como ela o reconhecera no meio daquela multidão ali reunida? Ele achava, com ironia, que muitos presentes tinham mais aparência de rei do que ele. Ele apontou para um de seus cortesãos:
"Ali está o rei. Não sou eu"
Ela sorriu e continuou a olhar para ele.
"Não... É o senhor o delfim"
Carlos fica admirado com a firme certeza de Joana. Talvez, como dizia, essa jovem pudesse ajudá-lo. Decidiu recebê-la a sós e fazer-lhe mais perguntas.Até hoje, ninguém sabe exatamente o que Joana disse à Carlos. Mas qualquer coisa que tenha sido dito entre os dois, foi o suficiente para deixa-lo radiante.

Joana mostrou ao delfim a necessidade de apressar-se, recrutando-a para o serviço militar. Ela precisava de homens e armas. O delfim tinha que dá-los a ela, e com a ajuda de Deus ela levaria os franceses à vitória. Em Órleans todos já a conheciam, e estavam aguardando por ela, esperando que levasse a liberdade. Ele ouvia a tudo, fascinado. Ela repetiu-lhe também o que as vozes haviam dito recentemente.
"Aguentarei cerca de um ano... Não mais!"

Mas qualquer que tenha sido a intenção de Carlos, esta se mostrou fraca diante de seus conselheiros. Este, ávidos e de prestígio e poder, ressentiam-se com a influência que a jovem tão rapidamente ganhara junto ao delfim.

Em março, Joana foi mandada para a cidade de Poitiers, a fim de ser indagada pelos doutores da Igreja. Ela concordou com a investigação, mas desde o início s

e mostrou impaciente com os eruditos e suas perguntas. Freqüentemente as cândidas respostas de Joana expunham a mesquinhez das perguntas dos religiosos:
"Você acredita em Deus?"
"Mais do que vocês" respondeu
A inquisição arrastou-se por semanas. Entretanto, por mais que tentassem, os eruditos de Poitiers não conseguiram argumento sólido para desacreditar em Joana. Afinal, em meio de abril, emitiram sua decisão. Declararam-na "boa cristã e católica". A jovem ficara exultante e mais impaciente para atingir seus objetivos.