Jeanne La Pucelle - A Grande Vitória
*** HP Joana D´Arc, a Donzela de Domremy ***
* A Grande Vitória *


Quando o delfim soube da decisão vinda de Poitiers, deu permissão para que Joana seguisse para as cidades de Tours e Blois, próximas da cidade sitiada de Orléans. Devia preparar-se para as batalhas.
Enquanto Joana preparava as tropas que lhe haviam sido destinadas para a marcha sobre Orléans, os soldados logo viram que ela não era um comandante comum. E não era somente o seu sexo e sua idade que a faziam diferente. Ficava furiosa sempre que ouvia um homem xingando, proibiu que roubassem e insistiu para que se afastassem das prostitutas que rondavam o acampamento. Os soldados foram convocados a assistir a missa todos os dias e a confessar-se antes de cada batalha. Para guiar suas tropas ao combate, Joana Darc tinha um estandarte especial, com a imagem de Cristo flanqueada por dois anjos.

Os soldados começaram a gostar de Joana. O amor foi inspirado por algo mais que sua afeição. Andavam eles ansiosos por alguém que pudesse extrair aquilo que tinham de melhor, levando-os ao heroísmo. Entretanto, comandantes de batalhões não sentiram o mesmo entusiasmo, recusando-se a reconhecer a autoridade da "donzela". Eles hesitavam em realizar o tipo de assalto aberto e direto que Joana pretendia.

Primeiramente, Joana proporia aos ingleses que fizessem a paz. Queria escrever para eles. Uma pessoa escreveria por ela, e as palavras escritas seriam aquelas ditadas pelas vozes que ouvia:
"Rei da Inglaterra, e duque de Bedford, que se entitula regente da França, conde
de Suffolk, senhores Scales e Talbot, que se intitulam tenentes do citado duque
de Bedford, eu lhes peço que se entreguem. Entreguem à donzela as chaves das cidades que tomaram pela força. A Donzela vem a mando de Deus para fazer a paz, se os senhores agirem da forma indicada. Caso contrário, serei uma grande chefe
guerreira e farei com que seu pessoal se retire da França. Se eles obedecerem à vontade de Deus, serão tratados com clemência. Eu, que venho enviada por Deus para expulsá-los da França, prometo que se não se retirarem haverá na França um tumulto como não se vê igual há mil anos.

Duque de Bedford, que se entitula regente da França, a Donzela enviada por Deus lhe roga que não provoque a destruição de si mesmo e de seu exército. Mas se o senhor se desviar da justiça, ela irá defender os franceses e será efetuada a mais bela façanha jamais feita na cristandade.
Escrito na terça-feira da Semana Santa.
Prestem atenção às notícias sobre Deus e a Donzela
".

A carta foi entregue no acampamento inglês. Como se esperava, não houve resposta.
"Agora, temos de nos preparar para entrar em combate!" bradou Joana
Logo em seguida houve uma reunião.
Participavam da reunião Dunois, um dos melhores soldados da França; Etienne Vignolle, conhecido por La Hire,de cuja reputação de guerreiro implacável Joana ouvira falar quando era criança; Gilles de Rais, um belo soldado que gostava tanto de trajes elegantes e ostentação, que viajava com muita pompa, com baús de roupas vistosas; Sire de Gamaches, um jovem impulsivo que ela, desde o início, percebeu que não estava nada satisfeito com sua presença.
Os ingleses tinham construído sete fortalezas em volta da cidade de Orléans. Estavam com posições bem entrincheiradas, e desalojá-los parecia tarefa difícil. Os comandantes preferiam a tática de esperar para ver se os ingleses se cansavam do cerco. Pensavam que Joana pudesse ser útil como mascote que levantaria a moral da tropa e nada mais. Planejavam enviá-la com alimentos para o povo da cidade sitiada, animando-o a resitir. Quando soube de tudo isso, a jovem ficara furiosa.

Na manhã de 4 de maio, Joana foi acordada cedo por uma grande agitação na rua. As forças francesas haviam atacado o pequeno forte inglês de Saint Loup. Como não foi informada sobre o ato, rapidamente pegou o estandarte e a espada e dirigiu-se ao campo de batalha.
Em Saint Loup, a luta já havia começado. Os franceses fraquejavam seriamente, mas ao verem o estandarte de Joana animaram-se. Depois de algumas horas, os franceses haviam conquistado o primeiro

forte.
No outro dia, o conselho reuniu-se a fim de preparar novo ataque. Joana não fora convidada como deveria ter acontecido de acordo com as ordens do delfim.

O plano de Joana era tomar dois fortes ingleses menores que cercavam Órleans. Com os ingleses seriamente abalados, assaltaria a fortaleza maior, o forte de Les Tourelles. Sua estratégia era simples: nenhum desvio, apenas ataque direto. Quando os franceses atingiram o primeiro forte, o Saint-Jean-Le-Blanc, os ingleses, atemorizados com a nova audácia, se renderam quase imediatamente. O segundo forte, Les Augustins, fora seguramente construído sobre ruínas de um antigo mosteiro e já não era difícil atingir. Ainda assim, ao anoitecer, os ingleses haviam perdido também posição.

Apesar de toda essa demostração, os comandantes aconselharam a Joana não tentar atacar Les Tourelles. Os homens estavam cansados, argumentaram. Mas Joana Darc não alterou os planos. Na manhã de 7 de maio, chamou os soldados que, cansados e confiantes, partiram.
Joana subiu no bastião que ficava diretamente em frente ao de Les Tourelles, o principal baluarte em mãos dos ingleses. Pediu a presença de Sir William Glasdale, que ela sabia ser o capitão encarregado.
"Eu lhe peço que desista. Tenho ordens de Deus e de Seus Santos, e digo-lhe que seu lugar não é aqui. Vá embora, para que suas vidas sejam salvas"
Sir Glasdale riu dela.
"Volte para os seus campos, vaqueira! Lá é que é o seu lugar. Não se meta em assuntos que fogem à sua compreensão"
"O senhor usa palavras ousadas" retorquiu Joana "Mas pense bem. Em breve o senhor irá embora. Deveria arrepender-se depressa. Muitos dos seus soldados serão abatidos, mas o senhor não estará aqui para ver" Glasdale desceu da torre. Parecia um pouco abalado...

Ao atingirem o forte, os homens lançaram ao ataque, surpreendendo por sua fúria. Les Tourelles era uma fortaleza com um profundo fosso circundando sua base, dificultando a escalada dos muros (nas batalhas do século XV, as escadas eram encostadas nas muralhas e os homens combatiam sobre elas). Ao final da tarde, muitos franceses haviam perecido e o progresso fora pequeno. Joana que estivera o tempo todo na linha de frente, foi derrubada por uma flechada no ombro esquerdo.
"A Donzela foi abatida. A Donzela morreu. Lá se foi a mensageira de Deus!" Zombavam os ingleses
O Sire de Gamaches, ao ver a cena, se arrependeu por ter sido injusto com a donzela. Mandou que pegassem seu cavalo e a levassem para ser tratada. Mas antes, pediu que ela o perdoasse.
"Eu não lhe quero mal. Nunca vi um cavaleiro mais completo"
Isso desanimou profundamente aos homens. Mas logo que seu ferimento foi tratado, retirou-se para um lugar próximo para refletir sobre o próximo passo.

Ao retornar, Joana insistiu em nova investida. Atacaram as torres do forte com mais ferocidade. Dessa vez, os ingleses começaram a fugir através do rio Loire, usando uma ponte elevadiça apressadamente consertada. Os franceses então, carregaram um barco com trapos embebidos em piche, alcatrão e óleo, puseram fogo e deslizaram a embarcação para debaixo da ponte. Logo as tábuas da ponte se incendiaram e cerca de vinte soldados ingleses, incluindo Glasdale, caíram no Loire. Com o peso das armaduras, com cerca de 20 quilos, afundaram todos no rio. Les Tourelles fora conquistada.

No outro dia, 8 de maio, Joana recebeu a notícia de que os ingleses estavam abandonando até mesmo os fortes que ainda permaneciam em suas mãos. Ela chorou muito pelos ingleses mortos. Orléans era agora inteiramente dos franceses e isso era tudo que importava. Em apenas 3 dias, Joana realizou o que para os comandantes era quase impossível. Todos acreditavam ter presenciado um milagre. Os padres da cidade organizaram procissões em sua honra e as autoridades declararam que o dia 8 de maio seria sempre um dia de festa na cidade. Ela era tratada como santa. Joana ganhou muitos presentes por sua vitória. Dentre seus ganhos favoritos estão finas vestes e bons cavalos.

Mas no lado dos ingleses, que estavam seriamente abalados, não houve festejo algum. Na carta que escreveu ao rei da Inglaterra resumindo o que acontecera em Orléans, o duque de Bedford, governador inglês de Paris, descreveu Joana como "uma discípula e partidária do demônio". Ouvindo as façanhas de Joana, muitos ingleses convocados para lutar na França recusaram-se a ir.

Mais surpreendente foi a reação indiferente do delfim. Recompensou-a com certa soma em dinheiro e convidou-a para visitá-lo em seu castelo. Numa carta dirigida para as cidades do seu reino noticiando a grande vitória, mencionou Joana apenas no final, quase num adendo. A glória ficou com os exércitos e seus comandantes. E quando ela começou a pressionar Carlos para que autorizasse a dar o próximo passo de sua missão, levando-o a Reims para ser coroado, tornou-se obstinado e pediu-lhe paciência.