Jeanne La Pucelle - O Julgamento
*** HP Joana D´Arc, a Donzela de Domremy ***
* O Julgamento *


Na horrível sala de julgamento, estavam seus dois juízes: o bispo Cauchon e o inquisidor de Paris.

Pierre Cauchon caíra nas boas graças de Henrique V e do duque de Bedford. Quando tinha cinqüenta anos, tornara-se bispo de Beauvais; naquele momento, estava com sessenta e era um dos clérigos mais ricos da França. Um homem alto, corpulento, com traços duros, tinha uma presença poderosa. A confiança em si era como tal. Era avaro, e não tinha muitos escrúpulos.
O bispo sabia que se esperava que ele provasse que ela era uma feiticeira. Era o único veredicto possível. Teria de ser mostrado que Joana Darc era uma criatura mancomunada com o diabo e com espíritos maléficos.

Sentado na plataforma, Cauchon era uma figura importante com seus mantos vermelhos com bordas de filigranas douradas. De cada lado dele, sentados em bancos esculpidos, estavam os quarenta assessores vestidos de mantos pretos - um contraste impressionante com o esparrinhar de vermelho proporcionado por Cauchon. Muitos deles eram simpatizantes da causa inglesa e queriam vingança. A acusada teria que enfrentar esse imponente grupo, sozinha...
Apesar disso, firme na dedicação de seus santos, Joana entrou irradiando tranqüilidade. Seu julgamento se sucedeu em 21 de fevereiro de 1431.
O primeiro procedimento é o de juramento de sinceridade. Ela expressou suas dúvidas sobre a amplitude dos assuntos a quem devia lealdade em primeiro lugar:
" A respeito de muitos assuntos, jurarei voluntariamente. Mas as revelações que me foram feitas por Deus, nunca contei a ninguém a não ser para Carlos, meu rei, e não as
revelarei embora por isso possa me custar a vida. Minhas vozes e meu conselho secreto
têm me dito para não revelá-las a ninguém
"

Estavam perdendo tempo, disse Cauchon. Ela devia fazer o juramento, caso contrário, seu depoimento não teria valor algum. Mas ele teve de concordar que ela deveria responder a perguntas sobre seus atos e sua fé, mas poderia não achar que pudesse fazer o mesmo com relação a suas visões.
A primeira sessão chegara ao fim. Parecia ter sido totalmente ocupada por formalidades.

Mais tarde, Cauchon conversou com Jean Beaupère, ex-reitor da Universidade de Paris, que fora designado para ajudá-la na reinquirição. Ele era um homem astuto, culto em matéria de leis, inclusive das da Igreja. Era um homem de julgamento calmo e claro, e alegara que sob uma reinquirição bem-feita uma simples camponesa iria destruir a si mesma; e quando Cauchon disse que ela poderia ser condenada depois da primeira aparição perante o tribunal, foi Beaupère que salientou que seria melhor que ela comprometesse a si

mesma. Eles queriam um caso de heresia e feitiçaria. Queriam que a Inquisição a declarasse culpada e a entregasse ao setor secular para a sentença, que seria de morte na fogueira.

A próxima sessão seguiu numa câmara menor, como Beaupère solicitou. Estava presente também o inquisitor de Paris, Jean Le Maître. Mas Joana estava tranqüila, pois ouvira suas vozes de manhã bem cedo.
Santa Catarina e Santa Margarete tinham dito que ficasse animada. Deus a estava protegendo, e acima de tudo ela deveria ser valente. Devia falar o que lhe passava pela cabeça. Recusar-se a responder se lhe perguntassem alguma coisa que achasse sagrada demais para ser mencionada. E sobre outros assuntos, dizer a verdade.

O julgamento prosseguia e num certo momento Beaupère quis saber de que modo ela localizara o delfim quando fora levada à presença dele. O delfim tentara impingir outra pessoa a ela, não tentara? Mas ela o identificara de imediato. Ela disse que fora guiada até ele.
"Por que sinal?"
"Sobre isso não vou falar"
Os assessores trocaram sussurros. Que tipo de julgamento era aquele, no qual a prisioneira estava sempre se recusando a responder certas perguntas?
"Então essas vozes falaram com você, uma humilde camponesa. Você deveria fazer essa coisa estranha... deixar suas vacas e suas ovelhas e levar o delfim até à vitória."
"Foi isso que me disseram pra fazer"
"E qual seria sua recompensa por tudo isso?"
"A salvação de minha alma"
Beaupère começara a ficar exasperado. A jovem estava causando uma impressão muito boa. Claro que iriam considerá-la culpada, mas isso devia ser feito de maneira a não deixar dúvida alguma. Não queriam que ela se tornasse mártir depois da morte.

Enquanto o julgamento se seguia, os espectadores se espantavam com o modo que Joana lidava com a situação. Mas apesar de muito cansada, Joana não desistiu e não se deixou intimidar. Dessa vez, Cauchon assumiu o interrogatório.
"Você sabe se está na graça de Deus?" perguntou ele com ironia
Se não estou, peço a Deus levar-me a ela; se estou, que Deus me conserve nela"
Se ela dissesse que estava, seria acusada de reivindicar um saber exclusivo de Deus. Se dissesse que não, abriria brecha para ser acusada de agente do demônio. Mas com essa resposta, evitou os dois perigos.

O processo continuou por seis semanas, com três ou quatro horas de interrogatório a cada manhã e, geralmente, mais duas ou três horas após o almoço.

Os assessores tentaram inúmeras formas de colher o maior número possível de condenação. Mas era impossível provar conclusivamente, como pretendiam, que Joana era feiticeira, bruxa ou criminosa.
Enfim, os juízes encontram uma evidência para acusá-la.
O fato de Joana negar a submeter-se à autoridade deles, poderia ser comprovadamente um motivo para ser condenada como herege.
De acordo com a teologia da época, os ministros da Igreja recebiam o poder e inspiração diretamente de Deus, e para amar e obedecer a Deus, era preciso amar e obedecer a Igreja e seus ministros.
O fato de Joana usar roupas masculinas era encarado como um crime contra Deus. Exploraram minuciosamente este fato, ordenando que ela pusesse roupas de mulher. Ela se recusou:
"Essas roupas não afligem minha alma. Quanto às roupas femininas, não as porei enquanto isso não agradar a Deus"

A insubordinação de Joana atingiu um ponto culminante quanto recusou-se aceitar do tribunal de que suas vozes eram malignas e

emanavam do demônio. Argumentavam que pessoas não instruídas submetiam-se a qualquer visão ou voz e que somente um ministro da Igreja, inspirado por Deus, seria capaz de determinar a origem de tais vozes. As doutrinas sustentavam que as vozes vindas de Deus eram raras. Agora, para provar que era uma verdadeira católica, deveria renunciar suas vozes. A idéia era ridícula!

No início de abril, os juízes e assessores estavam satisfeitos com a força de acusações que possuíam contra a jovem. Alinharam uma dúzia de acusações formais e trechos dos depoimentos de Joana que acreditavam apoiá-los. Leram-no diante do tribunal reunido no dia 12 de abril. Distorceram muito do que Joana realmente havia dito. Uma acusação era suficientemente séria para compensar todas as outras: "Ela não se submete à determinação da Igreja militante, mas apenas a Deus". A leitura das acusações não era o final do julgamento. O tribunal da Inquisição ainda prosseguia com uma série de procedimentos destinados a ajudar o acusado a ver e admitir seus erros. O tribunal se destinava a salvar almas, muito mais do que fazer justiça. E assim, o mês que se seguiu à acusação, o mês em que Cauchon e seus colaboradores tentaram "salvar a alma" de Joana, induzindo-a ao arrependimento, foi o mais horrível que a Donzela teve que suportar.

Desde que chegara em Rouen, fora submetida a cruel tratamento. Na cela, ela foi acorrentada à cama e era sempre ridicularizada e tratada com crueldade pelos carcereiros ingleses. Não lhe era nem permitido o consolo de sua religião. Enquanto usasse roupas de homem, não poderia receber a comunhão nem pôr os pés numa igreja. Como consequência desse tratamento, Joana caiu seriamente doente. Mesmo assim, seguiu-se a próxima fase do julgamento. Joana pensou em renunciar a tudo, mas suas vozes insistiam que continuasse.

Na primeira semana de maio, os religiosos, impacientes, levaram Joana à câmara de tortura do castelo. Lá, interrogaram-na novamente, mas ela sustentava de que suas vozes eram de Deus: "Se quiser, terá de me arrancar membro a membro, e não
poderei fazer outra coisa se não me submeter. E se no auge da tortura que a sua crueldade me impuser eu admitir o que o senhor quiser que eu diga, depois direi ao mundo que foram mentiras arrancadas de mim pelos seus instrumentos de tortura
"

Beaupère pousou um braço no braço de Cauchon.
O plano da tortura afinal, foi abandonado.

De volta à sua cela, ela deitou em seu catre. O corpo queimava em febre. Acreditava estar de volta aos campos de Domremy... dançando sob L`Arbres des Dames. Era jovem, apenas uma criança, e não ouvira as vozes. Sentia-se exausta mental e fisicamente. Não comia nada havia dias - a não ser um pouco de pão embebido em vinho. Tentara responder às eternas perguntas deles, tendo o cuidado de evitar aquelas que, segundo ela, poderiam ofender o céu.

Quando foram buscá-la para levá-la ao tribunal no dia seguinte, viram o quanto estavam mal. Mandaram médicos vê-la. Ela não podia morrer. Eles tinham que condená-la; tinham de mostrar que ela fora um instrumento do diabo.
Os médicos concluíram de que Joana precisava de descanso. Poucos dias depois, ela pareceu um pouco melhor.

Um fato atraía muito à Cauchon: o temor profundo de Joana da morte pelo fogo. Manejou ele para que ela assistisse uma cena que lhe produziria grande medo. Logo de manhã, ela foi levada por Beaupère e Pierre Maurice, um dos assessores, à Saint-Ouen, onde havia um palanque e duas plataformas de madeira erguidas, onde estavam Cauchon e os assessores. William Erard, cônego de Rouen, que mais tarde admitiu não ter expressado seus sentimentos, começou a fazer um longo e severo sermão:
"Os franceses nunca foram uma nação realmente cristã. Oh, ele estava decidido a agradar seus senhores ingleses. E Carlos, que alegava reinar sobre aquela nação, devia ser um herege para ter confiado naquela mulher que agora estava diante de..."
"O senhor ofende nosso rei, que é o mais nobre dos cristãos... Ninguém gosta mais da Igreja do que ele..." interrompeu Joana
O orador passou a relacionar os crimes que a donzela cometera.
"Faça sua submissão" toonitou ele "Arrependa-se enquando há tempo"
Joana estava decidida a defender o rei.
"Se tiver um erro, ele é só meu"
"Ela está enfraquecendo", pensou Pierre Maurice. Ela disse: "Se tiver algum erro". Não teria dito isso uma semana atrás. Pobre menina. Pobre, corajosa menina!
"Você negará todas as palavras e atos que foram reprovados pelos juízes?" prosseguiu o cônego
"Eu aceitarei as de Deus e do nosso santo pai, o papa"

Depois disso, o padre retira o papel onde estava escrita a sentença formal que condenava Joana a ser entregue às autoridades civis e ser queimada. Muitos assessores suplicavam que Joana se submetesse e salvasse sua vida enquanto ainda era tempo. Mas no meio do clamor, uma palavra atingiu Joana: "Fogo!". De repente, ela pede para o padre parar de ler. Renunciaria às suas vozes, vestiria roupas de mulher e faria tudo que a Igreja quisesse. Era por isso que os juízes ansiavam.

Logo, pegaram uma declaração de retratação já pronta para Joana assinar. Seus termos incluíam um consentimento em vestir roupas de mulher e submeter-se à prisão perpétua como pena por seus pecados.

Ondas de sentimentos reprimidos brotavam em Joana enquanto ela ouvia as palavras monótonas. Quando pegou a pena, deu uma risada lúgubre e histérica. Agora, conforme o acordo feito por Cauchon com os ingleses, caso não fosse condenada, a Igreja teria que devolvê-la aos ingleses. Os guardas a levam de volta para a cela, contrariando a lei da Igreja que garantia alojamento em suas prisões para um herege confesso e arrependido.